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2025-11-19
Vozes de Mannar: colonialismo de dados, conflito e soberania comunitária
Este artigo foi escrito por Kasumi Ranasinghe Arachchige, como parte do programa Vozes juvenis pelos direitos digitais das Alianças da sociedade civil para o empoderamento digital (CADE), em parceria com a Forus.
Este relatório foi produzido em cooperação com o Happy Voice Hub, um coletivo juvenil multidisciplinar sediado em Mannar.
A Ilha de Mannar está localizada na Província do Noroeste do Sri Lanka e possui uma população de aproximadamente 66.087 pessoas, composta por mais de 17.835 famílias que vivem em cerca de 12.840 unidades habitacionais. A economia local depende fortemente da indústria da pesca, com grande parte dos habitantes também envolvidos na agricultura. Conhecida como a segunda maior área de pesca da Província do Norte, a Ilha de Mannar alcança uma impressionante média anual de cerca de 17.500 toneladas métricas de peixe (People’s Alliance for the Right to Land, 2025). Além desses meios de subsistência, a Ilha de Mannar é caracterizada por inúmeros ecossistemas naturais importantes. Estes incluem habitats diversos como florestas de manguezais, pântanos salgados, florestas de arbustos espinhosos, comunidades de plantas costeiras e dunas de areia. Esses ecossistemas terrestres, juntamente com áreas marinhas rasas associadas, como pradarias de ervas marinhas, zonas lamacentas, recifes de corais, bancos de areia e ecossistemas recifais, foram declarados áreas protegidas sob a Portaria de Proteção da Fauna e Flora.
Definindo o colonialismo de dados na realidade de Mannar
Para os jovens de Mannar, o colonialismo de dados não é um conceito abstrato; é a experiência física de ser observado, extraído e dominado. Ele se manifesta em várias formas de mascarar as intenções e a identidade dos coletores de dados, apresentadas de duas maneiras principais: primeiro, através de estudos unilaterais e sigilosos em que pessoas externas chegam para estudar a terra, as condições ambientais e a geografia (por exemplo, locais de parques eólicos ou mineração de ilmenita) sem o consentimento ou a colaboração da comunidade. Como observou uma ativista, embora mapas de terras e dados ambientais tenham sido coletados para projetos de turbinas eólicas, nenhum membro da comunidade foi consultado ou recebeu qualquer benefício desse processo. Os dados são então usados para justificar projetos, não para informar a comunidade.
Em segundo lugar, o colonialismo de dados aparece na exploração transacional de pessoas vulneráveis. Empresas corporativas de microcrédito e investimento chegam disfarçadas como pesquisadores ou até mesmo estudantes universitários para identificar, ajudar e mitigar problemas comunitários, coletando dados pessoais altamente sensíveis. Essas informações incluem histórico familiar e profissional, hábitos cotidianos e rotinas diárias, incluindo programas e canais de televisão, frequentemente direcionando mulheres e jovens, sem transparência sobre o uso final ou a segurança desses dados. Elas também miram comunidades de pescadores e de palmeira, muitas vezes prometendo benefícios em troca de informações, mas desaparecendo logo em seguida.
No contexto ambiental ou político, embora os dados sejam coletados, sua implementação pode ser lenta, como observou uma ativista. Isso inclui autoridades de várias áreas realizando avaliações sem revelar o propósito. Figuras políticas usam truques geracionais (ou seja, explorando repetidamente as gerações), sem responsabilidade. As corporações muitas vezes não precisam coletar dados localmente porque podem obtê-los diretamente do governo, mas principalmente os setores de microcrédito e investimento adquirem dados pessoais de forma agressiva, agravando os inúmeros problemas já existentes nessas comunidades.
A divisão digital e a armação da informação
O cenário digital em Mannar apresenta um paradoxo: embora a tecnologia tenha conectado a comunidade, ela também criou novas vulnerabilidades. Ativistas enfrentam a supressão de conteúdo, com postagens sobre protestos frequentemente removidas. De forma mais ampla, a literacia digital é inacessível — uma parte significativa da população usa as redes sociais principalmente para entretenimento e tem dificuldade em receber apoio para navegar nos algoritmos conforme suas necessidades ou distinguir entre notícias oficiais e falsas. Além disso, o desconhecimento sobre o rastreamento de informações deixa as comunidades suscetíveis à manipulação e à desinformação.
Essa vulnerabilidade é agravada pela pobreza digital, impulsionada pelo alto custo de dados e pelo acesso à internet instável e interrompido, o que isola os jovens de oportunidades essenciais como educação, workshops e campanhas. Esse isolamento força os jovens a migrarem para outros distritos ou países em busca de segurança no emprego, onde enfrentam discriminação, especialmente devido a certas barreiras (idioma, preconceitos no trabalho, etc.), e são frequentemente obrigados a aceitar trabalhos que exigem esforço físico intenso ou causam danos indiretos.
Quando os dados “científicos” se sobrepõem ao conhecimento geracional
O conflito entre os dados corporativos ou governamentais e o conhecimento comunitário é evidente. Empresas que propõem grandes projetos de desenvolvimento, como parques eólicos, mineração de areia e a expansão planejada do porto de Pesalai financiada pelo BAD, apresentam constantemente “dados científicos” que afirmam “sem dano ambiental” ou prometem “energia limpa”. Esses dados oficiais são usados para justificar lucros e ignorar as realidades vividas pelos moradores e seus impactos sociais, econômicos e ambientais.
Essa desvalorização do conhecimento contribui para a falta de consciência sobre a proteção ecológica e defende práticas prejudiciais como o arrasto de fundo, frequentemente racionalizado como “trabalho tradicional”. A crise se agrava ao comparar a capacidade dos barcos locais (25 kg ~ 70 kg) com a dos barcos estrangeiros (até 1 tonelada métrica), revelando a escala da destruição de recursos. Essa instabilidade força os pescadores locais a viverem dia após dia, sem oportunidade de poupança ou diversificação, demonstrando como dados externos e modelos econômicos existentes desvalorizam e apagam ativamente o conhecimento e a expertise intergeracional.
A visão para a soberania comunitária e a ação
O sonho dos jovens ativistas de Mannar para a Soberania Comunitária de Dados é um futuro construído sobre três regras fundamentais:
- Consentimento e transparência: Qualquer pessoa externa que colete dados deve primeiro obter o consentimento da comunidade e fornecer uma identidade oficial clara (“nada de máscaras”).
- Compartilhamento recíproco e clareza: Os dados coletados devem ser compartilhados com a comunidade em um formato (e línguas) que ela possa compreender facilmente, permitindo verificar sua veracidade e desafiar desinformações governamentais ou corporativas.
- Benefício local e ausência de dano: O propósito dos dados deve beneficiar os moradores locais e nunca ter a intenção de causar dano ou exploração.
Atualmente, “forasteiros” costumam vir coletar informações e depois desaparecer. Quando pessoas externas chegam, até mesmo membros da comunidade podem confiar nelas simplesmente porque oferecem uma ideia, sem saber que essas pessoas — às vezes se passando por estudantes universitários ou pesquisadores corporativos — estão coletando informações sob uma “máscara” de intenção benigna. Deve haver um requisito de identidade oficial ou prova de quem são e o que representam.
Por fim, devem ser estabelecidos mecanismos para garantir a privacidade e a segurança dos fornecedores de dados.
A metáfora mais poderosa de sua luta foi “uma rede de pesca descartada por forasteiros”. Como descrito, entidades estrangeiras lançam uma rede usada no mar, levando todos os peixes e seu ambiente (dados e recursos) e deixando o mar vazio para as gerações futuras.
A mensagem mais importante que queriam que todos entendessem é:
“Assim como senhas, precisamos proteger nossos dados e garantir que a coleta de dados seja segura. Não decidam nosso futuro sem nós — o verdadeiro progresso deve respeitar o conhecimento, o consentimento e os direitos da comunidade.”
Kasumi Ranasinghe Arachchige é uma pesquisadora integrativa e defensora com oito anos dedicados ao bem-estar mental, comunitário e planetário. Com mestrado em Psicologia Clínica, ela se especializa em resiliência em saúde e clima, aplicando uma perspectiva ecopsicológica/interseccional para conectar engajamentos ambientais, sociais e digitais. Como co-diretora do The Biodiversity Project, possui ampla experiência no uso da defesa digital para combater a desinformação, amplificar vozes comunitárias e promover um futuro digital baseado em direitos. Seu trabalho é impulsionado por um compromisso com um futuro mais justo e equitativo, criando mudanças positivas por meio de abordagens interdisciplinares e parcerias colaborativas.

Aviso legal: Este artigo foi cofinanciado pela União Europeia. O seu conteúdo é da exclusiva responsabilidade da Forus e não reflete necessariamente as opiniões da União Europeia.
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