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2026-06-03

A mente antes do asfalto: O desafio da empatia e da inclusão na Venezuela

O debate global sobre acessibilidade tende a centrar-se nas infraestruturas físicas: a construção de rampas, a conceção de elevadores ou a adaptação dos serviços de transporte. No entanto, para os defensores dos direitos humanos e as organizações da sociedade civil na Venezuela, a transformação mais urgente não requer materiais de construção, mas sim uma mudança de perspetiva. No caminho para o cumprimento da Agenda 2030, uma premissa assume grande importância: o preconceito e o estigma social são a verdadeira deficiência de uma sociedade.

 

Por seu lado, o Conselho Nacional para Pessoas com Deficiência (CONAPDIS) — órgão do governo venezuelano responsável por esta matéria — afirmou nas suas plataformas oficiais que «o preconceito é a verdadeira deficiência da sociedade». Quando instituições e ativistas concordam com este diagnóstico, o quadro torna-se claro: o primeiro passo para construir um país inclusivo é derrubar as barreiras atitudinais.

 

 

ODS 10: Reduzir as desigualdades através da empatia

 

O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 10 da ONU visa empoderar e promover a inclusão social de todas as pessoas, independentemente da sua condição. Na Venezuela, onde se estima que entre 8% e 13% da população viva com uma deficiência, o quadro jurídico já proporciona uma base sólida para este progresso. A Lei das Pessoas com Deficiência (Diário Oficial n.º 38.598) estabelece claramente nos artigos 5.º e 6.º que a deficiência é uma condição complexa que interage com barreiras ambientais, reconhecendo a diversidade de capacidades como parte da riqueza social.

 

César Heredia, coordenador operacional da Fundação Ruedas de la Felicidad, observa com otimismo que as barreiras ambientais estão a ser superadas quando a sociedade civil se organiza e utiliza ferramentas modernas, como as redes sociais, para sensibilizar e educar.

 

«A deficiência não é o fim do mundo; é uma condição de vida que nos põe à prova, mas também nos ensina a valorizar as coisas de uma forma diferente», afirma.

 

 

ODS 11: Transformar as cidades e o desafio do design universal

 

O ODS 11 convida-nos a pensar em cidades inclusivas, seguras e sustentáveis. Embora o desenho urbano tradicional no país tenha sido concebido com base em «tamanhos médios» que, por vezes, ignoram a diversidade corporal — como salienta Isandra Villegas, engenheira e especialista em gestão pública e estudos de mobilidade urbana, ao discutir a necessidade de adaptar o mobiliário urbano e os transportes a pessoas com condições como a obesidade —, hoje o país dispõe de pontos de partida valiosos que demonstram que a mudança é possível.

 

Longe de estar paralisada, a Venezuela mostra sinais de arquitetura inclusiva e turismo acessível através de projetos locais emblemáticos:

 

• Caracas: Parque Hugo Chávez (La Rinconada) abriga o primeiro Parque para a Neurodiversidade e Diversidade Funcional, concebido com espaços seguros e acolhedores para pessoas no espectro do autismo e com outras deficiências.

 

• Maracaibo: Foram promovidos projetos focados na arquitetura inclusiva, assumindo a forma de espaços recreativos especializados para crianças e adolescentes com condições motoras e cognitivas.

 

A estes esforços junta-se uma história inspiradora de liderança juvenil que está a redefinir os espaços públicos no país. Sebastián Filoramo, um adolescente cego de 15 anos, tornou-se o criador e a força motriz por trás de uma iniciativa histórica: um parque recreativo totalmente inclusivo concebido em Barquisimeto. Este espaço inovador derruba barreiras ao incorporar pavimento tátil para orientar pessoas cegas, rampas estratégicas, linguagem gestual e áreas para interação com animais e desporto, ao mesmo tempo que oferece pulseiras gratuitas para crianças com deficiência.

 

Desporto e Sociedade Civil

 

A inclusão vai muito além da infraestrutura; trata-se de recuperar a confiança e reconquistar espaços.

O melhor exemplo disso é Raicelis Rojas, uma mulher de 23 anos de Valência que é uma das atletas apoiadas pela Fundação Ruedas de la Felicidad. Na sequência de um incidente que afetou a sua mobilidade aos 13 anos, encontrou no desporto de alto rendimento a ferramenta perfeita para demonstrar o seu potencial. Hoje destaca-se em disciplinas como lançamento do peso, dardo, disco, basquetebol em cadeira de rodas e maratonas.

 

«O desporto foi uma experiência maravilhosa porque me fez confiar mais em mim mesma. Motivou-me a não ficar fechada em casa», diz Raicelis. Para ela, o campo desportivo é um espaço de libertação emocional e realização. Ela lembra-nos que as pessoas com deficiência têm simplesmente «uma maneira diferente de ver o mundo», convidando a sociedade a concentrar-se nos talentos em vez das limitações.

 

Desde 2017, a Fundação Ruedas de la Felicidad transformou mais de 4.000 vidas na Venezuela. A sua abordagem não é de caridade, mas sim holística: fornecem ajudas técnicas (como cadeiras de rodas para o dia a dia ou próteses) e oferecem apoio psicológico para promover a reintegração plena em atividades educativas, laborais e desportivas.

 

Um compromisso coletivo

O caminho rumo a 2030 na Venezuela constrói-se dia a dia através da determinação dos seus cidadãos. Como César Heredia corretamente salienta, o apoio familiar e a fé são os pilares fundamentais que sustentam o ânimo, mas o objetivo final é a plena concretização dos direitos consagrados nas leis nacionais e nas convenções internacionais.

 

Quando nos focamos no talento em vez de nas limitações, o futuro muda. O compromisso é coletivo: derrubar os preconceitos do dia a dia para que a inclusão deixe de ser um projeto no papel e se torne uma realidade nas nossas ruas.

 

 

 

 

Aviso: Este artigo foi escrito no âmbito do programa de bolsas de jornalismo Forus. Saiba mais aqui