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(c)Instituto e se fosse
2026-03-04
O Amanhã é Feminista: a organizações que estão redesenhando o Brasil
Em todo o Brasil, os movimentos feministas já não atuam apenas em protestos. Estão a construir instituições.
Num país marcado por profunda desigualdade racial, violência política, desinformação digital e retrocesso democrático, uma nova geração de organizações lideradas por mulheres negras, mulheres indígenas, líderes LGBTQIAPN+ e jovens feministas está a fazer mais do que defender direitos — está a construir infraestruturas democráticas.
De redes anti-desinformação a ferramentas feministas de IA, de formação de candidatos políticos a plataformas de segurança digital, estas organizações estão a redesenhar a forma como o poder funciona no Brasil. O seu trabalho oferece lições não só para a América Latina, mas também para a sociedade civil global que navega num espaço cívico cada vez mais reduzido e em meio a perturbações tecnológicas.
Instituições feministas como infraestrutura democrática
O movimento feminista contemporâneo do Brasil evoluiu para o que algumas líderes descrevem como «laboratórios de imaginação política».
O termo, usado por organizações como o Instituto Update e a Olabi, reflete uma mudança: da defesa reativa para a construção proativa de instituições.
Em vez de esperar que os sistemas políticos se reformem, essas organizações estão a intervir diretamente — treinando candidatos, criando ferramentas tecnológicas, combatendo a desinformação de género e desenvolvendo novas formas de governança comunitária.
O resultado é um ecossistema de infraestrutura feminista que fortalece a democracia a partir da base.
Enfrentando a violência política e a desinformação
O Brasil tem visto uma escalada da violência política contra as mulheres, especialmente mulheres negras na vida pública. Em resposta, iniciativas como o Instituto E Se Fosse Você? surgiram em 2018, após eleições marcadas por desinformação, discurso de ódio e ataques às normas democráticas.
Com base na crença de que a educação é uma ferramenta de transformação, a organização produz materiais educativos, campanhas e ações comunitárias que abordam a violência política de género e a desinformação racializada.
O seu Plantão Colmeia oferece apoio confidencial a mulheres que enfrentam violência política, incluindo assistência psicológica e orientação para denunciar abusos com segurança. Enquanto isso, o Clube de Leitura Contra a Desinformação, em parceria com bibliotecas comunitárias em Porto Alegre, usa literatura e diálogo público para fortalecer o pensamento crítico em comunidades vulneráveis.
Essas intervenções reconhecem um padrão global: a manipulação digital visa desproporcionalmente mulheres líderes, especialmente mulheres negras.
Tecnologia, raça e poder
A governança da tecnologia é outra linha de frente.
Fundada no Rio de Janeiro em 2014, a Olabi trabalha para democratizar o acesso à tecnologia e diversificar quem molda o futuro digital. Inspirada nos makerspaces, mas enraizada na justiça racial e de género, a Olabi conecta educação, cultura e experimentação tecnológica.
A sua iniciativa emblemática, PretaLab, mapeia, conecta e treina mulheres negras em tecnologia, ajudando a preencher lacunas estruturais na economia digital do Brasil. O programa combina pesquisa, redes profissionais e estratégias de inclusão no mercado de trabalho.
A Olabi também administra o Tramas Digitais, uma iniciativa de treinamento em direitos digitais que integra experiência territorial, organização comunitária e alfabetização tecnológica — um modelo cada vez mais relevante à medida que a inteligência artificial e a governança de dados remodelam o espaço cívico globalmente.
Num mundo onde os debates sobre a governança da IA são frequentemente dominados por empresas e governos, a Olabi representa um contrapeso da sociedade civil.
Liderança juvenil como poder político
Enquanto algumas organizações se concentram na reforma estrutural, outras investem na liderança futura.
A
Girl Up Brasil — parte do movimento global Girl Up — treina e conecta meninas de 13 a 22 anos para se tornarem ativistas e líderes políticas. Operando em todo o país, a organização apoia “clubes” feministas liderados por meninas em suas próprias comunidades.
Sua programação abrange igualdade de gênero, dignidade menstrual, saúde mental, justiça alimentar e participação democrática. Ao capacitar mulheres jovens para se envolverem diretamente na política institucional, a Girl Up Brasil aborda um déficit democrático global persistente: a sub-representação de mulheres jovens nos espaços de tomada de decisão.
Enquanto as democracias em todo o mundo lutam contra o desinteresse dos jovens, as redes feministas juvenis do Brasil estão a demonstrar caminhos alternativos para a participação cívica.
Transformando o luto em governança
Poucas organizações personificam a transformação política feminista do Brasil mais do que o Instituto Marielle Franco.
Criado pela família da vereadora Marielle Franco após o seu assassinato em 2018, o Instituto busca converter o luto em mudança estrutural. Ele opera com base em quatro pilares: justiça, memória, legado político e cultivo de liderança.
Por meio da Escola Marielle, a organização treina mulheres negras, pessoas LGBTQIAPN+ e líderes periféricos em engajamento político. Sua plataforma Não Seremos Interrompidas documenta e combate a violência contra mulheres negras na política. A Agenda Marielle Franco sistematiza prioridades políticas que agora informam autoridades eleitas em todo o Brasil.
Ao conectar memória, dados e treinamento político, o Instituto ilustra como os movimentos feministas podem transformar a resistência simbólica em estratégia de governança.
Treinar candidatas, mudar políticas
A participação eleitoral continua a ser um campo de batalha crítico.
A Tenda das Candidatas opera como o que chama de “tecnologia social” — treinando líderes feministas, antirracistas e de direitos humanos para concorrer a cargos públicos e navegar pela política institucional.
Os seus programas abrangem estratégia de campanha, literacia política e defesa de causas, incluindo a justiça climática. A organização também se envolveu em advocacy a nível nacional, contribuindo para debates legislativos sobre violência política contra as mulheres.
Campanhas como a Setembro Neon mobilizam a consciência pública em torno da violência política de género e racial, combinando ativismo digital com mobilização nas ruas.
Em contextos onde as mulheres continuam estruturalmente sub-representadas nos cargos políticos, as iniciativas de formação de candidatas não são auxiliares — são transformadoras.
Mídia, IA e justiça de género
A mídia feminista é outra fronteira estratégica.
Fundado em 2015 como uma revista digital independente, o Instituto AzMina tornou-se uma organização feminista nacional que combina jornalismo, tecnologia e defesa de causas.
A sua plataforma PenhaS apoia mulheres vítimas de violência, fornecendo informações, funções de ajuda de emergência e iniciativas presenciais de fortalecimento da comunidade. Com mais de 17 000 utilizadoras, representa um modelo de proteção feminista viabilizada pela tecnologia.
AbortonoBrasil.info centraliza dados sobre políticas e acesso ao aborto no Brasil, combatendo a desinformação com recursos baseados em evidências.
O AzMina também desenvolveu o QuitérIA, uma ferramenta feminista de inteligência artificial projetada para analisar e classificar propostas legislativas que afetam mulheres e comunidades LGBTQIAPN+ — um exemplo da sociedade civil a utilizar IA em defesa dos direitos, em vez de vigilância ou controlo.
Imaginação política como prática institucional
O Instituto Update trabalha na intersecção entre narrativa, inovação e formação política em toda a América Latina. Ao longo da última década, apoiou iniciativas que ligam a liderança de base à política institucional, particularmente entre líderes negros, indígenas, trans e jovens feministas.
A sua abordagem centra-se na transformação narrativa — mudando quem é visto como ator político legítimo e expandindo a imaginação política disponível para as instituições democráticas.
Numa era em que o declínio democrático é frequentemente discutido em termos de erosão institucional, estas organizações demonstram uma dinâmica paralela: a reinvenção institucional.
Por que isso é importante além do Brasil
O ecossistema feminista do Brasil não opera isoladamente. Globalmente, a sociedade civil enfrenta:
- Aumento da desinformação digital
- Manipulação política habilitada por IA
- Ataques de gênero contra mulheres na política
- Encolhimento do espaço cívico
- Polarização democrática
O que distingue o caso brasileiro é a escala e a coerência da resposta institucional feminista.
Essas organizações não estão apenas resistindo à erosão democrática; elas estão projetando infraestruturas alternativas — tecnológicas, educacionais, políticas e narrativas — que tornam a democracia mais inclusiva e resiliente.
Para redes internacionais da sociedade civil, como a Forus e seus membros, o Brasil oferece um estudo de caso sobre como a inovação na governança de baixo para cima se parece na prática.
O futuro não é feminista por causa da retórica: é feminista porque as instituições estão sendo construídas — e estão sendo construídas agora.
Este artigo foi escrito como parte do programa de bolsas de jornalismo da Forus. Saiba mais aqui