© Forus

Forus

© Kiiza

2026-01-05

À medida que Uganda se aproxima das eleições de 2026, a sociedade civil recorre ao jornalismo de paz para proteger a democracia

À medida que o Uganda se aproxima das eleições gerais marcadas para 15 de janeiro de 2026, as memórias da violência eleitoral do passado, particularmente contra jornalistas, permanecem vivas. Em resposta, as organizações da sociedade civil estão a intensificar os esforços para proteger o espaço cívico, equipando jornalistas com competências em jornalismo de paz, reportagem ética e segurança pessoal, reconhecendo o papel central da mídia na manutenção da participação democrática.

 

Num recente curso de formação para jornalistas realizado na cidade de Mbarara, organizações da sociedade civil ugandesa lideradas pelo Fórum Nacional de ONG do Uganda (UNNGOF) exortaram os repórteres a adotarem o mapeamento de mensagens e a reportagem sensível a conflitos como ferramentas para combater a desinformação, reduzir as tensões políticas e reconstruir a confiança pública durante a época eleitoral.

 

A formação faz parte de iniciativas mais amplas da sociedade civil, incluindo o apoio de programas como o projeto Democratic Governance Facility / Civic and Political Rights (DGF/CBR), que visa reforçar a cobertura eleitoral, a educação dos eleitores e a responsabilização antes das eleições.

 

Quando a reportagem se torna um risco

 

A urgência de tais intervenções é sublinhada pelas experiências vividas por jornalistas como Huzaifa Mugerwa, que se lembra de ter coberto uma eleição suplementar em Kawempe North em 2025, no início da sua carreira.

 

«Foi pacífico durante a maior parte do dia», diz Mugerwa. «Mas quando a votação terminou, um homem mascarado chutou uma urna eleitoral. As pessoas começaram a gritar. Os soldados chegaram. Então, a violência eclodiu.»

 

Enquanto Mugerwa transmitia ao vivo o caos que se desenrolava, homens mascarados o confrontaram, exigindo saber para qual empresa de comunicação ele trabalhava. Seu equipamento de gravação foi confiscado e ele foi arrastado para dentro de um veículo.

 

Num contexto de crescente violência contra jornalistas no Uganda antes das eleições gerais de janeiro de 2026, o jornalista Huzaifa Mugerwa relata ter sido vendado, interrogado e espancado por homens mascarados que o acusaram de trabalhar para o líder da oposição Robert Kyagulanyi (Bobi Wine) — o principal adversário do presidente Yoweri Kaguta Museveni. Mugerwa diz que foi detido por seis ou sete horas e depois jogado à beira da estrada.

 

Esses incidentes, há muito documentados por organizações de liberdade de imprensa, intensificaram-se à medida que Uganda se aproxima das eleições. Os jornalistas temem que a intimidação pelas forças de segurança não apenas ameace a sua segurança, mas também limite o acesso dos cidadãos a informações confiáveis e independentes — um pilar essencial da governança democrática.

 

A sociedade civil entra em ação

 

Reconhecendo esses riscos, o Uganda National NGO Forum (UNNGOF) e organizações parceiras da sociedade civil estão a trabalhar para fortalecer a capacidade dos jornalistas de reportar com responsabilidade sob pressão. De acordo com o diretor executivo do UNNGOF, Moses Isooba, o jornalismo ético não é apenas uma obrigação profissional, é um dever cívico:

 

«Os jornalistas devem sempre encontrar factos e ser precisos, especialmente ao reportar sobre questões sensíveis como eleições», disse Isooba ao apresentar diretrizes sobre a cobertura eleitoral.

 

Ele alertou contra a publicação de sondagens de opinião enganosas, observando que as sondagens são proibidas nas 48 horas que antecedem o dia das eleições devido ao seu potencial para influenciar o comportamento dos eleitores:

 

«Nenhuma notícia vale a sua vida. Deve priorizar a segurança e usar equipamento de proteção ao cobrir eventos políticos voláteis.»

 

Mapeamento de mensagens como ferramenta para a paz

 

Um dos focos centrais da formação foi o mapeamento de mensagens, uma abordagem prática que ajuda os jornalistas a identificar os factos essenciais, evitar o sensacionalismo e manter a consistência durante a reportagem ao vivo.

 

Ao incentivar uma narrativa calma e factual em vez de manchetes carregadas de emoção, o mapeamento de mensagens visa evitar que a cobertura da mídia aumente as tensões. Os facilitadores da sociedade civil enfatizaram que, em momentos politicamente delicados, a forma como uma notícia é contada pode ser tão importante quanto o que é reportado.

 

Para a jornalista Evelyn Kabugho, a formação foi transformadora.

 

“Foi uma revelação”, disse ela. “Isso nos lembrou que nosso papel é informar o público com responsabilidade, não alimentar conflitos.”

 

Kabugho salientou a importância da verificação de factos e da literacia mediática, tanto entre jornalistas como entre o público, especialmente numa era de desinformação desenfreada.

 

«Os cidadãos também devem aprender a questionar o que recebem; não devem ser enganados», afirmou Kabugho.

 

Apatia dos eleitores e o papel dos meios de comunicação social

 

A formação também abordou a diminuição da participação eleitoral e a crescente apatia política. Christine Masika, outra participante, observou que muitas elites já não votam, em parte porque são financeiramente independentes e estão desligadas dos processos eleitorais.

 

Ela exortou os jornalistas a procurarem candidatos políticos com poucos recursos que lutam para chegar aos eleitores, argumentando que o acesso justo à mídia é essencial para a participação democrática inclusiva.

 

“Os jornalistas devem fazer um esforço para encontrá-los e dar-lhes voz”, disse ela.

 

Um risco de gênero

 

Os perigos da reportagem eleitoral são particularmente graves para as jornalistas mulheres. De acordo com a Associação de Mulheres da Mídia de Uganda (UMWA), muitas repórteres estão a reconsiderar o trabalho de reportagem em campo devido ao aumento da violência e da intimidação.

 

“Ao escolher o jornalismo, eu queria estar em campo”, disse Josephine Namakumbi, repórter e âncora da NBS Television. “Mas com a violência que está a acontecer, tenho medo pela minha vida. É frustrante.”

 

A Associação de Mulheres da Mídia de Uganda relata que dezenas de jovens jornalistas estão abandonando a profissão, enquanto a pesquisa da UNESCO–ICFJ descobriu que 73% das jornalistas em todo o mundo enfrentaram violência online ou offline, simplesmente por fazerem seu trabalho.

 

O Relatório do Índice de Liberdade de Imprensa de Uganda 2020 documentou 174 violações da mídia, com a polícia responsável por 60% desses casos. As agressões representaram 71 casos, enquanto 40 envolveram a negação de acesso à informação. Estudos mostram ainda que 10,9% das jornalistas sofreram abusos nesse ano, com as repórteres a serem as mais afetadas pelas violações.

 

Durante o recente Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, a UMWA, apoiada pela Comissão Nacional do Uganda para a UNESCO, apelou ao governo, aos proprietários de meios de comunicação social e às plataformas digitais para que garantissem a segurança dos jornalistas, especialmente das mulheres.

 

«Quando uma jornalista é atacada, a liberdade de expressão de todos é prejudicada», disse Rosie Agoi, secretária-geral da Comissão Nacional do Uganda para a UNESCO.

 

Uma solução liderada pela sociedade civil

 

Apesar de opiniões divergentes, como as expressas pelo presidente do Conselho de Mídia do Uganda, Paul Ekochu, que descreveu a insegurança dos jornalistas como um «problema» em vez de uma «crise», as organizações da sociedade civil insistem que uma intervenção proativa é essencial.

 

Ao treinar jornalistas em jornalismo de paz, ética e segurança, organizações como a UNNGOF estão a trabalhar para proteger o espaço cívico, fortalecer a cultura democrática e garantir que as eleições sejam noticiadas de forma a informar, e não a inflamar.

 

 

 

Este artigo foi escrito como parte do programa de bolsas de jornalismo da Forus. Saiba mais aqui