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2026-03-26

Grandes Lagos: Quando a arte transforma desafios ambientais em oportunidades

Na região africana dos Grandes Lagos, iniciativas que combinam artesanato, arte e mobilização cidadã estão transformando grandes desafios ecológicos em oportunidades econômicas e sociais. Diante da urgência ambiental, essas iniciativas demonstram uma forte vontade de agir de forma concreta.

 

No pátio da sede da empresa Nezerwa Investment Group, localizada na comuna de Ntahangwa, na província de Bujumbura, no Burundi, uma iniciativa criativa chama a atenção. Ali, cerca de quinze pessoas, em sua maioria jovens rapazes, trabalham cuidadosamente na confecção de esteiras. Ao redor deles acumulam-se matérias-primas: ervas ribeirinhas e, sobretudo, o jacinto-de-água.

 

Essa planta, durante muito tempo considerada uma ameaça para o lago Tanganica e para os rios que atravessam a capital econômica do Burundi, ganha aqui uma segunda vida.

 

Silas Bucumi, diretor da empresa, confirma essa visão: desde a sua criação, a empresa tem como missão transformar desafios ambientais em oportunidades comerciais.


“Damos valor ao jacinto-de-água da mesma forma que fazemos com os plásticos”, afirma com convicção.

 

Quando a arte socorre os rios

 

Desde 2022, Silas Bucumi e seus artesãos assumiram o desafio de transformar esse “problema” ecológico em um recurso criativo e útil. As fibras do jacinto-de-água são misturadas com outras ervas ribeirinhas para produzir as esteiras.

 

Além da proteção da natureza, essa iniciativa responde a uma necessidade social concreta. Ela oferece uma alternativa acessível à população burundesa, especialmente àqueles que vivem no interior do país e cujos recursos limitados nem sempre permitem comprar tapetes ou colchões importados.

 

Atualmente, a produção das esteiras ainda é artesanal e manual. A empresa produz cerca de 30 esteiras por dia, e cada artesão consegue trançar duas ou três. Contudo, esse ritmo depende fortemente do clima: quando as ervas estão completamente secas, a produtividade aumenta.

 

Em condições ideais, o Nezerwa Investment Group pode atingir uma produção mensal de 200 esteiras.

 

Para abastecer essa cadeia produtiva, mais de 30 coletores de jacinto-de-água supervisionados pela empresa trabalham diariamente nas margens do lago Tanganica e ao longo dos rios que atravessam a cidade de Bujumbura. Juntos, eles conseguem retirar mais de cinco toneladas de jacinto-de-água por dia.

 

Essa biomassa serve não apenas para a fabricação de esteiras, mas também como alimento para o gado. Cada quilo dessa planta retirado da água representa uma vitória para a proteção do meio ambiente.

 

Uma luta necessária contra um flagelo ecológico

 

A iniciativa de Silas Bucumi soma-se a outros projetos, como o Hyacinth Art House, que transforma a fibra seca do jacinto em objetos de arte, bolsas e cestos exportados para Uganda ou para a Europa. É uma luta que “vale a pena”, considerando as consequências devastadoras dessa planta.

 

Conhecido como a “peste verde”, o jacinto-de-água (Eichhornia crassipes) prolifera rapidamente na superfície de águas estagnadas. Ao formar uma camada densa, bloqueia a luz e o oxigênio, o que provoca a morte de peixes e ameaça a segurança alimentar das populações locais.

 

Além disso, esses aglomerados vegetais favorecem a reprodução de mosquitos, aumentando os casos de malária nas zonas ribeirinhas.

 

Do ponto de vista ecológico, o impacto é devastador para a qualidade da água e para a fauna e flora aquáticas. O problema é particularmente crítico para o lago Tanganica, uma importante fonte de água potável para os habitantes de Bujumbura e uma reserva pesqueira essencial.

 

Nos últimos anos, a subida do nível do lago agravou a dispersão do jacinto em áreas inundadas como Gatumba ou Rumonge, tornando o combate mecânico ainda mais difícil. Nesse contexto, a valorização artesanal torna-se mais necessária do que nunca.

 

A arte como ferramenta de sensibilização

 

Além das iniciativas econômicas, artistas da região utilizam sua criatividade para sensibilizar sobre as questões climáticas. A slammer e fotógrafa congolesa Do Nsoseme vê na arte uma forma de tornar os temas ambientais mais acessíveis.

 

“A arte permite traduzir a complexidade em emoção e narrativa”, explica.

 

Por meio de suas performances, ela apresenta histórias do cotidiano: pescadores enfrentando a escassez de peixes ou famílias afetadas por estações cada vez mais imprevisíveis. Para ela, essas narrativas aproximam as comunidades locais dos debates internacionais sobre o clima, frequentemente percebidos como abstratos.

 

As organizações da sociedade civil também desempenham um papel fundamental. O Conselho Nacional das ONGs de Desenvolvimento (CNONGD), membro da rede FORUS, trabalha para coordenar ações e fortalecer a voz das comunidades nas negociações climáticas.

 

Segundo seu secretário-geral, as redes regionais facilitam a troca de experiências e a construção de posições comuns. Elas também incentivam o uso de formas artísticas, como teatro e artes visuais, para mobilizar a população.

 

Iniciativas locais emergem apesar dos desafios

 

Entretanto, vários obstáculos persistem: falta de financiamento, acesso limitado a informações estratégicas e pouca consideração das realidades locais nas discussões internacionais.

 

Apesar desses desafios, iniciativas locais continuam surgindo. Projetos semelhantes ao do Nezerwa Investment Group transformam o jacinto-de-água em produtos artesanais, alguns deles exportados para outros países africanos ou para a Europa.

 

Para muitos atores, a chave está em uma abordagem enraizada nas realidades locais.

 

“As comunidades não devem ser apenas fonte de inspiração, mas também parceiras na criação”, destaca Do Nsoseme.

 

Nesse contexto, a transformação do jacinto-de-água em produtos úteis ilustra uma dinâmica mais ampla: a de uma justiça climática construída por e para as populações afetadas.

 

Diante da urgência ambiental, essas iniciativas demonstram uma verdadeira vontade de agir. Sejam artesãos ou artistas como a slammer Do Nsoseme, todos podem colocar sua arte a serviço de um futuro mais sustentável na região dos Grandes Lagos.

 

Este artigo faz parte do Programa de Bolsas de Jornalismo Forus.